quinta-feira, 25 de junho de 2009

Cachaça de Salinas guarda segredo centenário


A qualidade da cachaça salinense vem despertando grandes interesses no comércio exterior, com isso, crescem também as curiosidades dos degustadores pelos segredos que envolvem a produção artesanal da aguardente. Muitos dizem que é o clima do município, que permite a produção de cana de qualidade. Outros garantem que o segredo estar na fermentação. Mas, o certo é que, os produtores estão fazendo tanto sucesso que dezenas de órgãos de imprensa de todo o Brasil estão sendo atraídos a Salinas para publicações de reportagens especiais. Inclusive, já existem produtores marcados na história como verdadeiras lendas, exemplos de Anísio Santiago, produtor da Havana e Antônio Rodrigues, da cachaça Seleta.

SALINAS – O agricultor Santino Dias Guimarães, de 95 anos, deste município, diz, com orgulho, que, graças à produção de cachaça, conseguiu criar 13 filhos. “Mexi com isso quase 50 anos”. Como ele, há outros antigos moradores do município que dedicaram a maior parte da vida à destilação artesanal da “branquinha”. O produto, que surgiu no tempo da escravidão, faz a fama da cidade do sertão mineiro, conhecida como capital nacional da cachaça.
Pode-se dizer que Salinas – de 37,4 mil habitantes –, que já se destacou também pela agropecuária, vive hoje em torno da bebida, preservando a tradição da técnica artesanal. Com 59 marcas registradas, o município produz em torno de 4,3 milhões de litros de aguardente por ano e a atividade gera cerca de 1,3 mil empregos diretos. Em todos os hotéis, o visitante acha guias sobre alambiques e marcas da região. A mais famosa é a Havana, considerada a melhor.
A partir de uma parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura e o município está sendo criado o Museu da Cachaça, previsto para ser concluído em 2009. É lá que o visitante vai conhecer todo o histórico da bebida. Não se sabe ao certo quando começou a produção de aguardente de cana em Salinas, cuja emancipação político-administrativa ocorreu em 1870, mas teria sido no fim do século 19 ou no início do século 20.
De lá para cá, a fama da cidade pela qualidade da pinga aumentou, graças a uma geração de produtores artesanais. O mais conhecido foi o legendário Anísio Santiago, fabricante da Havana, que morreu em dezembro de 2002, aos 90 anos. Hoje, um dos mais famosos é Antônio Rodrigues, produtor das marcas Boazinha e Seleta, considerado o maior fabricante individual de cachaça artesanal do Brasil.
Mas, por que Salinas produz a melhor cachaça do país? Pelo relato de antigos produtores, a qualidade da bebida é resultado do solo fértil – apropriado para a cultura da cana –, do método de fermentação, das leveduras – fungos responsáveis pelo processo de fermentação –, do envelhecimento e dos cuidados com higiene e asseio. Mas, o segredo está em algumas técnicas artesanais, que eles guardam a sete chaves. “A questão está no solo. A terra de Salinas dá uma cana diferente”, diz Sabino Pinto Souza, há 20 anos no ramo com as marcas Sabinosa e Brinco de Ouro, entre outras. Ele conta que trabalhou com Anísio Santiago, com quem diz ter aprendido o segredo de se fazer uma boa pinga, mas não o revela por dinheiro algum: “O bom para quem faz cachaça é não precisar vendê-la logo”. E completa: “Envelhecida, fica melhor ainda”.
“A boa cachaça depende da fermentação, feita com milho e arroz”, garante o experiente Santino Guimarães, que, por força da idade avançada, parou de alambicar há pouco de mais de cinco anos, mas guarda, como lembrança, rótulos das marcas que produzia: Carícia e Moreninha Fogosa. “As minhas não tinham mistura”, afirma o antigo produtor, acrescentando que guarda em casa, na Fazenda Angico, um pouco do estoque que destilou: “Quando chega um amigo, a gente dá uma garrafa a ele”.
Outro antigo produtor é João Fernandes Sobrinho, de 78, dono de uma das mais famosas marcas do município: Lua Cheia – como ele mesmo diz, conhecida em todo o país. Por causa da fama da pinga, ganhou o apelido de João da Lua Cheia. Ele também diz que o segredo “está na fermentação”. Mas faz uma ressalva quanto ao plantio da cana: “A de Salinas não gosta de adubo. Nunca usei”.
O produtor conta que “mexe com cachaça” há mais de 40 anos. Mas começou a produzir a Lua Cheia em 1972, com a qual criou os 13 filhos. Ele tem uma produção limitada de 10 mil litros por ano. João da Lua Cheia anunciou que a safra deste ano, encerrada em agosto, foi a última em que produziu a bebida. Quer vender a marca Lua Cheia, pois acha que não tem mais idade para alambicar, mas não revela o preço. “Dinheiro que dê para comprar uma fazenda e um apartamento”, prevê.
Há produtores artesanais de Salinas que estão no ramo pelo fato de manter não simplesmente um negócio, mas também uma tradição de família. “Aos 10 anos eu sabia fazer cachaça, aprendi com meu avô”, relata Aldeir Xavier de Oliveira, de 57, da marca Sabiá. O avô, José Xavier de Oliveira, ao lado de Anísio Santiago, é considerado um dos pioneiros do registro de marcas de aguardente na cidade, na década de 1930. “Lembro-me dos tropeiros transportando barris de cachaça em lombos de burro para Comercinho, Medina, Pedra Azul e outras cidades do Vale do Jequitinhonha. Eram 100 litros em cada barril”, conta.
Depois da morte de Anísio Santiago, a Havana continuou sendo produzida com a mesma qualidade. O negócio agora é comandado por um dos seus filhos, Oswaldo Santiago. Quando Anísio ainda era vivo, iniciou-se uma briga na Justiça com uma empresa, por causa do registro da marca. Enquanto resolvia a questão, o experiente produtor pôs o próprio nome na garrafa. Mas a Justiça já deu ganho a seus herdeiros, que podem usar a marca novamente.
Na Fazenda Havana, a 20 quilômetros de Salinas, hoje no município de Novorizonte, emancipado em 1997, o sistema de produção da famosa cachaça é preservado nos moldes de Anísio Santiago. As lembranças do legendário produtor são guardadas por um sobrinho e funcionário da fazenda, Roberto Santiago dos Santos, que trabalhou com ele durante 10 anos. “Era um homem sistemático, de poucas palavras, mas honesto. As primeiras coisas que verificava eram o asseio e a qualidade do produto”, recorda.


Um comentário:

Unknown disse...

bem elaborado o artigo, gostaria nomes de marcas de cacahaca do estado para?

grato,


tarcisio marcos m reboucas